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domingo, 3 de dezembro de 2017

VOZ DO QUE CLAMA NO DESERTO

VOZ DO QUE CLAMA NO DESERTO
Lucas 3.

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”. Lucas 3.4

INTRODUÇÃO

“Voz do que clama no deserto” será uma exposição bíblica de Lucas 3. Veremos como João Batista proclamou a mensagem de Deus. Veremos sua sinceridade e intrepidez em confrontar o pecado. Veremos as consequências do arrependimento e da fé, bem como as trágicas punições para a rebeldia, incluindo o inferno de “fogo”. Perceberemos que a genuína salvação é evidenciada por boas obras. Por fim, faremos algumas aplicações e um apelo em se observar a lição.

I – CONTEXTO HISTÓRICO, POLÍTICO E RELIGIOSO DA PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA (vv 1-2)

1) A historicidade da religião verdadeira. (v.1)

O evangelista Lucas é criterioso em sua pesquisa sobre o evangelho e detalhista em sua apresentação. No terceiro capítulo do evangelho que leva seu nome, ele inicia com a menção do momento histórico em que se iniciou a pregação de João Batista, precursor de Jesus Cristo.
É curioso notar que o cristianismo não se recente de mostrar que é uma religião histórica, cravada na realidade da humanidade. Não é uma filosofia, apenas, ou uma hipótese imaginada na mente de algum suposto sábio. Não! Essa religião, diferentemente de muitas outras, se expõe ao escrutínio do cientista e à investigação do intelectual, ou seja, ela é passível de se ver na realidade por meio da História humana.
Isso não significa que as pessoas crerão ou haverá provas científicas acerca de Deus, mas que toda a religião está firmada na história e na vida da humanidade indiscutivelmente. Abraão, Isaque, Jacó, José, Davi, Salomão, Maria, Jesus, Pedro, Paulo e muitos outros são personagens históricos, reais. Suas vidas e obras revelaram um grande propósito de Deus para a salvação da humanidade.
Tal informação nos dá credibilidade de que não estamos crendo e confiando simplesmente num conto de fadas, mas em testemunhos reais, numa existência, de fato, da obra de Deus entre os homens.
O apóstolo Paulo chegou a elogiar a Igreja aos Tessalonicenses porque “tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes.” (1 Tessalonicenses 2.13).
          Muitas religiões tiveram seu início em mitos e lendas; na imaginação dos seus autores. O que o apóstolo enaltece é que os Tessalonicenses compreenderam que não era assim com a verdadeira religião.

2) Importância de se conhecer e compreender a época, o contexto e a sociedade em que se vive. Não somos alienados. (vv. 1-2).

Lucas mostra entendimento sobre o contexto de sua época, ou seja, ele sabe quem são os governantes em cada esfera: política e religiosa. Igualmente ele sabe sobre o caráter de cada um e suas atuações. O evangelista é informado e se constitui exemplo para os cristãos sobre a importância de não viver “alienado”. A ideia do texto pode-se aplicar para mostrar que somos cidadãos do céu e da terra. Logo, nossa cidadania terrena não pode ser esquecida. Uma vez que nossa atuação, e do cristianismo, se dá na história, como vimos anteriormente, temos que conhecer nossa história e se integrar a ela como partícipes.
Tal conhecimento contextual traz subsídio até mesmo para a ação pessoal e da Igreja. Com o conhecimento histórico, político e social de nossa nação percebemos as incongruências, calamidades e a loucura do homem sem Deus. É neste espaço crucial que o evangelho deve entrar, ser proclamado para glória de Deus.

3) A condição moral da época refletida por seus governantes.
(vv. 1-2).

Ao conhecer as figuras de autoridade, e descrevê-las, Lucas deixa transparecer, nas entrelinhas, o contexto moral em que vivia. Assim, exercendo a autoridade máxima no império romano temos Tibério César. O pastor e escritor cristão J. C. Ryle comenta sobre esta passagem que “Pouco ou nada sabemos de Tibério e Pôncio Pilatos, de Herodes e de seu irmão, de Anás e Caifás, a não ser que eram iníquos. Parece-nos que a terra estava entregue às mãos dos perversos (Jó 9,24)”[1].
O mundo naquela época não estava em melhores condições morais e espirituais do que hoje. Pelo contrário, estava pior. Contudo, a iniquidade dos homens não foi motivo para exclusão da mensagem divina, pelo contrário, se cumpriu a palavra que diz “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Romanos 5.20).

4) Deus não fica sem testemunho. João Batista é chamado. (v. 2).

Deus não ficou sem testemunho em nenhum momento da história. Assim, o profeta João Batista foi conclamado para ser a voz do Senhor naqueles dias. Sua pregação foi rica e empolgante, cheia de sinceridade e intrepidez.
Notemos que o início do Novo Testamento é marcado pelo retorno da voz profética que estava em silêncio por 400 anos. Assim, Deus rompeu o silêncio com a mensagem do evangelho para o povo, ou seja, uma mensagem de esperança e salvação.
Ninguém poderá chegar diante de Deus e alegar que não o conhecia, que nunca teve a revelação de Deus, pois o Senhor sempre falou ao homem e sempre deu testemunho de sua vontade. “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Romanos 1:19,20).

II – CONVERSÃO: ARREPENDIMENTO E FÉ

1) A solução para uma sociedade corrupta é arrependimento e conversão a Deus. (v. 3).

João Batista poderia falar de política, fazer ‘revolução armada’, criar uma ‘ONG’, ou coisa do gênero. Contudo, o mais importante fator de transformação da vida do indivíduo e da sociedade é o evangelho. Antes de toda transformação externa, deve haver uma transformação interna.
O chamado do evangelho é nesse sentido. Convidando o homem a um acerto consigo mesmo e com Deus. Uma proposta de libertação do velho homem, preso aos vícios. É um convite à reconstrução da paz com Deus.

2) É impossível a conversão sem arrependimento. (v. 3).

A mensagem parece ser pesada quando se enfatiza o arrependimento. Mas, o fato é que sem arrependimento não é possível a conversão, a salvação. Arrependimento significa que a pessoa se reconheceu pecadora e quer mudar sua disposição. Percebeu seus graves pecados contra Deus e os homens. Se enquadrou como devedora naquelas famosas listas bíblicas sobre os pecados e mazelas humanas, quando proíbe o assassinato, o adultério, a mentira, o orgulho, a cobiça, a embriaguez, a falta de amor para com o próximo, além de muitas outras coisas; e, o principal, a falta de honrar ao Senhor Deus Todo-Poderoso, criador, dono e detentor da Terra e dos Céus! Caso o homem não se enxergue terrivelmente pecador nestes quesitos, como poderá querer um salvador?

3) É impossível a conversão sem fé.

Por outro lado, não é somente o arrependimento que está em jogo na conversão, mas igualmente a necessidade de fé. O texto não deixa claro o que é evidente para o cristianismo, a necessidade de se depositar a fé em Jesus Cristo. Contudo, o judeu, para quem a pregação foi dirigida, tinha seu objeto de fé traçado. Na verdade, eles deveriam aguardar o Messias, que os livraria. Assim, sua fé, confiança objetiva, estava em Deus e no seu Messias, o redentor.
A fé bíblica do Novo Testamento nos convida a crer na mensagem de que necessitamos realmente de Deus, do perdão dos pecados, da remissão, e da vida eterna. Por outro lado, a fé é igualmente uma confiança na pessoa de Jesus Cristo, ao ponto de se lançar aos seus braços e entregar a vida a Ele. É atender ao convite de Jesus quando disse: “Vinde a mim...e eu vos aliviarei”. (Mateus 11.28).

4) Arrependimento e fé são os lados da mesma moeda “conversão”.

Assim, podemos concluir que fé e arrependimento são os lados de uma mesma moeda. A conversão simplesmente não ocorrerá caso esses dois elementos não aconteçam simultaneamente. Por isso, pregar o evangelho significa mostrar a necessidade de arrependimento e de fé. Ou seja, é importante mostrar o lado negativo e positivo. Negativo no sentido de desnudar o homem, positivo no sentido de vestir-lhe com roupas limpas.
O pastor e escritor cristão, Augustus Nicodemus, nos conta uma história que ouviu quando estava na África do Sul, por causa de seus estudos, e que serve de ilustração para a importância da congruência entre arrependimento e fé.
Lá, ouvimos uma história interessante. Uma senhora Zulu idosa converteu-se a Cristo e vinha regularmente a todos os cultos. Todos estavam muito felizes por ela, mas havia um pequeno problema: há anos ela não tomava banho. Aquilo começou a criar um problema, pois quando ela entrava no local das reuniões, seu mau cheiro perturbava a todos. Todo mundo sabia que ela havia chegado. As senhoras Zulus crentes resolveram tomar uma providência: reuniram-se, fizeram uma festa para ela, e lhe deram um vestido novo de presente, dizendo que gostariam muito de vê-la com o vestido novo na reunião seguinte. Ela ficou muito feliz e prometeu que na próxima reunião viria trajada assim. E de fato veio. Na reunião seguinte chegou de vestido novo, mas quando entrou e sentou-se, o velho e conhecido mau cheiro estava lá. Ela simplesmente vestira o novo vestido por cima dos trapos![2]

III – SINCERIDADE E INTREPIDEZ NA PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA (v. 7-8)

          João Batista foi firme em suas palavras. Sincero quanto ao estado deplorável do povo e intrépido para ter coragem de confrontá-los. Chegou a chamá-los de raça de víboras. Expôs o pecado do povo almejando alcançar algum arrependimento.
          Notemos que isso não foi simplesmente uma ofensa descabida, mas uma verdade que deveria ser exposta.
          A maior ofensa que um homem pode promover é o engano quanto às realidades espirituais que podem condenar o ser humano ao inferno! Isso sim é uma grande ofensa!
          Possivelmente alguns estavam preparados para responder à mensagem de João Batista. Evidente que nem todos concordaram. Nem todos a aceitaram. Sempre haverá os incrédulos.

1) O perigo da confiança na religiosidade. (vv. 7-8).

João conjectura que alguns o retrucariam confiantes no fato de serem filhos de Abraão. Ou seja, vemos a indicação de uma espécie de orgulho religioso ou confiança na religiosidade. Alguns pensavam que o simples fato de serem descendência de Abraão lhes dava uma espécie de blindagem contra o mal e salvação automática. Ledo engado.
A confiança religiosa não traz garantia de salvação de fato, foi o que João Batista frisou afirmando que ser descendência de Abraão nada significava de especial, pois até mesmo pedras poderiam ser suscitadas descendência de Abraão. O importante, então, seria o homem alcançar a verdadeira conversão ao Senhor. Um encontro pessoal de mudança de vida.

IV – O PERIGO DO INFERNO (v 9).

          O destino final de “toda árvore que não produz fruto” é o fogo. Uma ilustração para o resultado do homem se manter em rebeldia contra Deus. O evangelho é uma ‘faca de dois gumes” alguns dizem, no sentido de que oferece a salvação, mas ao mesmo tempo mostra a condenação. Jesus Cristo falou do caminho estreito e do caminho largo. No Antigo Testamento Moisés conclamou o povo a escolher o caminho da bênção ou da maldição.
          O inferno existe! É uma realidade e será o destino de punição para os rebeldes. A dura mensagem é ocultada em nossa sociedade humanista. Mas, não o foi por João Batista, por Jesus Cristo, pelos Apóstolos, discípulos e cristãos sinceros. É um futuro terrível para quem não lavar suas vestes no sangue do cordeiro, mas é uma realidade e devemos alertar as pessoas quanto a tais consequências.
          Claro que a conversão não deve ser motivada pelo medo, ou pelo desejo de escape do inferno, mas sim pelo honesto desejo de honrar a Deus; mas nem por isso, ou seja, por causa dos mal-entendidos, devemos deixar de falar a mensagem.
         
V – O ARREPENDIMENTO É EVIDENCIADO POR BOAS OBRAS (vv 11-14).

          Diante da exposição de João Batista, muitos perguntaram sobre o que haveriam de fazer?

1) Obras não salvam, mas são consequências inevitáveis da nova vida com Deus.

A resposta foi resumidamente que deveriam praticar o bem. Não pensemos que João esteja aqui ensinando salvação por obras, nada disso. Pois em momento algum da história a salvação se deu por esse meio, e o profeta o sabia muito bem. Ademais, não se contradiria com a posterior palavra de Paulo que disse: “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésias 2.8-9).
Contudo, a verdadeira salvação sempre traz consigo a evidência de boas obras. “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. (Efésias 2.10).

APLICAÇÃO

I – Precisamos estar conscientes de nosso contexto de vida. Contexto histórico, político e religioso. Isso é importante para nossa vida e fé. Não vivemos num vácuo. Nossas ações e práticas estão dentro de uma realidade histórica. Dentro de problemas da nação, da cidade, do bairro, etc. Imagine se você recebesse a missão que Lucas teve de escrever acerca da fé e tivesse que trabalhar com tais detalhes e informações. Como o faria se não tivesse conhecimento? Não devemos fazer uma dicotomia e pensar que tais coisas sejam do maligno. Temos sim que estar bem informados. Sermos sábios e conhecedores do nosso tempo e época. Com uma condição: de não conformarmos com este mundo!

II – A conversão é a ação conjunta do arrependimento e da fé. Não esqueçamos isso em nossas vidas. Façamos um exame para vermos se realmente nos arrependemos ou se realmente temos a genuína fé em Deus. Caso um desses elementos esteja em falta estaremos capenga. Por outro lado, é importantíssimo pregarmos o evangelho de modo completo. A mensagem do arrependimento não pode ser excluída por conta de escrúpulos humanos.

III – Nossa pregação deve ser sincera e com intrepidez. Não podemos ficar escondendo ou maquiando o pecado. Por outro lado, precisamos de força e coragem para, com destemor, proclamar a mensagem de Deus. Muitas vezes a mensagem realmente é forte, chocante, mas importante para colocar o homem orgulhoso no seu devido lugar.

IV – Não se deve esconder o destino final dos rebeldes. O inferno é real. Muitos estão indo para lá por falta de terem sido confrontados pelo evangelho. É um grande pecado esconder das pessoas uma perdição tão terrível que as espera caso não se “consertem” com Deus.

V – O arrependimento é evidenciado por boas obras. É inaceitável se dizer crente e viver no pecado, no escândalo, na velha vida pecaminosa. Simplesmente isso não se coaduna com a mensagem bíblica. Vigiemos para que não sejamos pedras de tropeço e motivo de escândalo. Que nosso arrependimento seja sincero e, de fato uma mudança radical no proceder!

APELO

Que estas sublimes realidades pregadas há tanto tempo pelo profeta nos alcancem e sejam acalentadas em nosso coração.
Que sejamos confrontados, sim, pela Palavra de Deus e que haja mudança em nosso ser.
Que sejamos pregadores com os mesmos princípios seguidos por João Batista, que foi fiel em proclamar a mensagem do Senhor em todos os seus aspectos.

Deus seja louvado.


[1] RYLE, J. C. Meditações no evangelho de Lucas. São Paulo: FIEL, 2013.
[2] LOPES, Augustus Nicodemus. Cheios do Espírito. São Paulo: Editora Vida, 2007.