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quinta-feira, 13 de julho de 2017

BOTALHA ESPIRITUAL


Não, não há um erro gramatical no título! Na verdade, a ideia foi fazer realmente um trocadilho de BOTA com BATALHA ESPIRITUAL inspirado por conta de uma declaração antiga da cantora gospel Ana Paula Valadão ao fazer alguns anúncios a respeito da gravação do 13° DVD do Diante do Trono que ocorreria em Barretos. O vídeo foi bastante comentado e conhecido no meio evangélico principalmente pelas críticas sofridas. O mesmo está sendo ressuscitado simplesmente para tratar de um tema que não quer ser sepultado: a Batalha Espiritual, compreendida nos moldes neo-pentecospais.

Bem, de antemão gostaria de afirmar que não tenho nada contra aquelas pessoas, nem contra seu trabalho, e desejo sinceramente sucesso à medida que representem e expandam legitimamente o reino de Deus. Quero comentar sobre alguns entendimentos espirituais subentendidos nas declarações, mas de forma que não precise me desculpar posteriormente. Quero apenas salientar algumas posturas que acredito ser equivocadas e que influenciam muito a cristandade, principalmente o povo Batista Nacional, ao qual faço parte pela única e incompreensível graça e soberania de Deus.

O vídeo traria muitas possibilidades de comentários, seriam muitos detalhes a considerar e realmente haveria muitos equívocos, contudo, gostaria de concentrar naquilo que penso ser mais pernicioso, a declaração mais nefasta para uma espiritualidade saudável.

A cantora disse que o Senhor a levou a comprar uma bota de couro de píton. No seu entendimento tal ação seria “profética”. Depois, a tal bota estaria diretamente ligada aos desafios posteriores pelos quais ela passaria. Aí entra a parte que considero principal, ela teria ido visitar um “grande ministério de adoração no mundo” e eles estavam enfrentando um principado de piton, eles estariam fazendo um estudo sobre esse principado. A cantora teria sido avisada por Deus para trocar a sandália que usava pela bota de píton ao ir se encontrar com o ministério e ela teria alcançado, portanto, vitória.

            Todo o enredo e mais a declaração principal indicam o tipo de entendimento de batalha espiritual que ela acredita. Um tipo bem característico dos movimentos neo-pentecospais. Ou seja,

1)    veem demônio em tudo! A distorção no entendimento da batalha espiritual gera quase que crentes esquizofrênicos. Costumam ver o demônio em tudo! As forças sobrenaturais e o envolvimento espiritual seriam contínuos. Assim, não restaria o âmbito do natural. Um ministério, por exemplo, que estivesse passando dificuldade por conta de má administração ou mesmo corrupção dificilmente seria interpretado nestes termos, mas, logo a explicação seria que estaria passando por uma luta contra o principado da píton, o principado do jacaré, do chimpanzé, sei lá. Esquecemos que a maioria dos eventos do nosso dia a dia são naturais. Eu leio a Bíblia porque aprendi a ler e é um ato natural. Vou trabalhar e é um ato natural. Meu chefe é “ruim” e, acredite, isso é a natureza dele, a personalidade dele, é natural. Volto e durmo à noite e isso também é natural. Vou à igreja, oro, canto, ouço, tudo natural. Não costumo tropeçar em demônios, nem cumprimentar anjos. Deus também está nas coisas naturais! Não digo que não haja ocasiões difíceis e não anulo a real ação do Maligno, pois a Bíblia afirma tais coisas, mas não significa que em todo momento esteja lá o tinhoso! Reparem nas palavras desse povo, tudo tem que envolver um “tá reprendido”, “tá amarrado”, “eu determino”, etc. Tudo é na base do espiritual. Se um cachorro se engasta, é obra do demônio. Já vi pessoas orarem nestes termos, por causa da opressão demoníaca nas trivialidades dos animais.

2)    fazem um dualismo irrestrito. Dualismo é uma visão que divide a existência em dois poderes, do bem o do mal. Assim, o mundo existiria sempre diante do conflito entre o bem e o mal. Mas, isso é maniqueísmo, ou seja, uma antiga heresia. Não existe uma disputa cósmica entre o bem e o mal. Há UM só poder que governa todas as coisas: Deus. Todas as coisas acontecem mediante a vontade do Senhor. Devemos acreditar realmente na soberania do Senhor. Assim, podemos ficar tranquilos diante da vontade de Deus, pois ele é quem cuida de nós. E mesmo quando ele permite como no caso de Jó, o “ataque” do inimigo estaria visando um bem maior. Ou seja, nossa disposição diante da realidade seria confiar no Senhor e crer que todas as coisas estão debaixo do seu poder! Viver numa constante guerra e traçando estratégias a todo o momento para que o bem vença o mal seria uma atitude esgotante e infrutífera. Acredite, Deus não precisa disso e você tem coisa mais importante para fazer!

3)    valorizam a atividade do maligno. A cantora falou que o tal ministério estava fazendo um estudo sobre o principado de píton. Isso é valorizar demais a ação maligna, se é que existiria realmente tal investida. Estudar sobre o principado X, Y e Z? Nunca vi tal orientação na Bíblia! Daniel, por exemplo, que é muito comentado por conta de sua oração e da batalha do anjo com o demônio, passou longe de fazer uma loucura dessas. Ele estava orando e pedindo perdão pelo seu povo, simples assim. Ele não tomou parte em estratégias ocultados, em estudar as ações malignas, etc. O apóstolo Paulo, igualmente, nunca orientou e nem mesmo realizou em suas ações missionárias estudos e estratégias contra os principados. Na verdade, ele mencionou a existência deles, mas sua orientação à Igreja foi sempre viver a verdade, a Palavra, fugir do pecado e crescer em santidade, o resto era com o Senhor. Gálatas, por exemplo, fala muito contra as obras da CARNE. Ou seja, um dos maiores problemas que enfrentamos. Efésios 6, o mais conhecido, citado e mal interpretado texto de “batalha espiritual” fala que nossas armas seriam: verdade, justiça, salvação, Palavra de Deus, e a pregação do evangelho. Não encontro a arma: estudar o principado de píton! Ou estudar o inimigo qualquer que seja ele. A igreja não tá conseguindo nem ler a Bíblia vai perder tempo estudando o principado do capeta? Aí perdemos tempo com essas coisas e deixamos outros imensuravelmente mais importantes de lado. Se não, vejamos:
Quem domina as línguas originais da Bíblia para uma melhor exegese? Quem já leu a Bíblia toda? Quem já leu bons escritores cristãos que expõem com riqueza e profundidade o texto bíblico e teologia saudável como: A. B. Langton, Charles Hodge, A. A. Hodge, Louis Berkhof, Bancroft, Millard Erikcon, Wayne Grudem, Stanley, Shedd, Luiz Sayão, John Piper, John Macartur, Alister, Augustus Nicodemus, Franklin Ferreira, Wilson Porte, Jonas Madureira, D. A. Carson, Hernandes Dias Lopes, Itamir Neves, C. S. Lewis, Agostinho, Lutero, Cavino, Strong, Geoge Ladd, Gerard Von Rad, Kaiser, Norman Geisler, A. W. Pink, A. W. Tozer, Abraham Kuyper, Antony Hoekema, Spurgeon, J. C. Ryle, J. I. Packer, Joel Beeke, John Bunyan, John Sttot, Josh MCdowel, Mark Dever, Martin Lloyde Jones, Mauro Maister, Paul Washer, R. C. Sproul, Richard Baxter, Willian Hendriksen, e milhares de outros... Quem já fez um estudo sério em relação aos Credos e às Confissões de Fé produzidas pela Igreja? Conhecemos o Credo dos Apóstolos? O de Nicéia? De Calcedônia? De Constantinopla? Já fizemos análises das confissões de fé tais como: Catecismo e a Confissão de Fé de Genebra (1537), Confissão de Fé da Guanabara (1555), Confissão Galicana (1559), Confissão Escocesa (1560), Confissão Belga (1561), o Catecismo de Heidelberg (1563), 2ª Confissão Helvética (1566), os 39 Artigos da Igreja Anglicana (1571), Cânones de Dort (1619), a Confissão e os Catecismos de Westminster (1647)? Estamos perdendo uma riqueza de contribuição dessa envergadura, que aponta para como obedecer e glorificar a Deus para estudar o principado de píton? É brincadeira, não?

4)    se esquivam da responsabilidade pessoal. O equívoco no entendimento da batalha espiritual anula, de certa forma, a responsabilidade pessoal. Paulo sempre enfatizou que a nossa natureza pecaminosa é que deve ser combatida. Quando repreendeu a igreja aos Coríntios contra divisões, incesto, imoralidade, etc, sempre apelou para a consciência das pessoas com o intuito delas deixarem SEUS PECADOS. Não mandou a igreja fazer corrente tal, repreender o demônio Y, mas, disse, em outros termos, para os pecadores tomarem “vergonha na cara”. Assim, devemos deixar de culpar a “pomba gira” por conta do adultério do irmãozinho, porque no juízo final o adultério será imputado a ele e não ao demônio!

5)   perdem tempo em não se devotar mais integralmente ao Senhor e à sua bendita vontade. Ao invés de longos estudos, congressos, cursos, palestras, rituais e outros elementos acerca de demônios, batalhas e afins, por que não usamos nosso tempo mais integralmente ao Senhor? Por que não ler mais a Bíblia? Fazer mais cultos familiares? Culto pessoal? Por que não ler bons comentários bíblicos? Por que não ler bons autores cristãos com frequência (já lemos pelo menos uns 10 daqueles citados anteriormente)? Por que não realizar mais visitas aos irmãos da igreja? Por que não se envolver mais efetivamente em algum ministério da igreja? Por que não trabalhar mais com as crianças? Com os jovens? Adultos? Por que não discipular os vizinhos? Por que não ser mais frequente aos cultos? Por que não escrever devocionais e enviar constantemente para parentes, familiares e amigos mostrando a riqueza do evangelho, o plano de salvação do Senhor? Por que não se envolver mais efetivamente com missões? Por que não aprender grego e hebraico? Por que não aprender hermenêutica bíblica? Por que não fazer um estudo panorâmico do Antigo Testamento? Quem foi o autor do livro de Samuel? Quais as implicações teológicas do Pentateuco para nossas vidas hoje? Qual a escatologia contida em Daniel? Oseias tem algo a falar para nós hoje? Qual a Cristologia traçada por Isaías? E quanto ao Novo Testamento? Que tal fazer uma análise dos sinóticos? Qual a principal proposta do evangelista João? Compreendemos o Apocalipse, minimamente que seja? Quais as orientações dos apóstolos em relação aos falsos profetas? Enfim, estamos preferindo gastar nossas vidas nas lutinhas contra os principados de píton, do que se aprofundar no conhecimento e vivência com Deus. Lamentável!

Bem, por estas e outras acredito haver um grande equivoco no entendimento da batalha espiritual na visão neo-pentecostal endossada pela cantora conforme suas declarações dão a entender. Note bem, minha questão é quanto ao princípio teológico.
Sinceramente, espero que tenhamos maior maturidade diante da questão. Não falo apenas para levantar polêmica, mas, com a utópica vontade de que haja crescimento em nosso meio cristão, e, principalmente, Batista Nacional.

Podemos ser um povo avivado, abençoado, cheio do carisma de Deus e, ao mesmo tempo, firme e estabelecido nas Escrituras.

4 comentários:

  1. Sabe o que eu acho, a acarteirada de conhecimentos não ameniza as coisas. Querer promover interesse na palavra e em escritos com boas referências dessa maneira não gera empatia. Já temos jovens que cada vez mais não leem Bíblia uma igreja que se precipita no ostracismo e esse argumento não está levando ninguém ao conhecimento. Falo de sinceridade no coração eu anseio por uma igreja saudável. Não se combate à falta de conhecimento com argumentos que fogem à percepção, tem que pegar na mão e ir conduzindo gerando amor por leitura por estudos. E pra isso tem que se pagar um preço. Num tempo onde os argumentos estão pautados em ver vídeos no YouTube ou mudamos a abordagem ou então estou totalmente cético quanto essa próxima geração.

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    1. Entendo sua preocupação Ulisses. Contudo, esse texto e a crítica que fiz tem um caráter apologético. É uma crítica a respeito de um posicionamento doutrinário duvidoso. Precisamos também criticar o erro. Mas, não só ficar nisso. O discipulado, a ajuda, o ensino, o 'caminhar de mãos dadas", são igualmente importantes. São duas esferas diferentes. Abraços.

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  2. Interessante leitura Lissao! Bom texto Vladimir.

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